Hoje a tragédia das Torres gêmeas
completa 23 anos. Não é ridículo dizer parece que foi ontem. Porque foi. Ontem,
ou melhor, hoje, 11 de setembro, eu ia começar a estudar em Nova York, é, eu
escrevo assim, metade certo, metade errado. Escolha a que vc prefere.
Eu ainda era uma redatora ativa, pronta p
viver o sonho americano nas “Ogilvys” da vida. Seriam 3 meses que me tornariam
destaque na propaganda tupiniquim.
Perder isso foi o que menos doeu.
Claro que não posso comparar minha dor
com a dos americanos, centenas, milhares andando como mortos vivos, distâncias
equivalentes ao centro do rio a Niterói, ou mais, ruas cheias de gente fazendo
um desfile de horror, peles queimadas caindo, choro compulsivo, roupas sujas e esfarrapadas,
era a volta dos mortos vivos pra casa, pros que ainda tinham uma casa pra
voltar.
Foi ontem, por isso está tão claro na
minha mente, o fim do sonho americano e o início do pesadelo da guerra.
Nossas dores eram diferentes, eu não
perdi ninguém porque não tinha ninguém. Estava completamente sozinha, com meus
novos e desconfiados cidadãos, já que tenho cara de muçulmana, como bem me
lembrou o “super” (mistura de síndico e zelador) do meu prédio, ao me
presentear com uma faixa pra cabelo da cor da bandeira americana, onde se lia I
LOVE NY.
I ME FERREI teria sido mais apropriado. O
medo nos dias que se seguiram não se compara ao nosso medo de assalto,
arrastão, bala perdida. Não. Nada se compara ao medo do silêncio que antecede a
explosão do fim do mundo.
O medo da voz do metrô, anunciava uma
estação ou uma bomba? Um dia não aguentei mais, meu coração acelerando no trem parecia
que ia ele mesmo explodir, e saltei umas três estações antes. Melhor ir a pé ou
de ônibus, se fosse morrer, eu queria ser enterrada depois e não antes, num
vagão.
Voltar levou praticamente os 3 meses que
teriam levado o curso. Voltar era fugir do inferno, todo mundo queria e a fila
era imensa. Mas os americanos tiveram que continuar, os de Nova York, pelo
menos
Com o mesmo ar blasé que temos, de
carioca que ignora tudo. No fundo estávamos com medo, e sabemos que teremos
medo pra sempre. Nós aqui, eles lá. I love NY, mas não quero voltar, obrigada.
Só a imagem do Central Park me dá
saudade, o único lazer grátis, o único que eu podia ter.
A economia era um mistério total,
principalmente pra quem precisava receber dinheiro de outro país.
Mas, convenhamos que mistério na economia
pra um brasileiro não é nenhum mistério. Então me virei como pude, jantando
omelete de sobra do almoço, descobrindo maneiras de fazer o bilhete de ônibus
durar o dobro, sendo xingada por jamais dar gorjeta. Isso, pra quem nasceu no
Brasil, é rotina.
Hoje, tanto tempo depois, ainda choro a
morte da Terra das Oportunidades, de onde eu só queria ter a oportunidade de
sair.
Depois do 11 de setembro, não sei se apenas
pra mim, os Estados Unidos se tornaram só mais um país rico e desgovernado,
como com um 4 x 4 sem freio.
Eu e os muitos que conheci lá não
estávamos assim tão preocupados em punir os culpados, pelo menos não exatamente
naquele momento, tudo que queríamos era curar as feridas, poder dizer “está
tudo bem agora” a quem estivesse chorando. (Aqui o texto faz um minuto ou 23
anos de silêncio pelos mortos da Wall of Prayers). Poder consolar com frases
como “Vai passar” ou “Acabou.”
Mas não acabou, pelo contrário, infelizmente
o 11 de setembro foi o primeiro dia do resto das nossas vidas no mundo inteiro.
Foi ontem, foi há 23 anos, é hoje.
Gisela Cesario