Pouca gente deve se lembrar de um comercial de cerveja ( o nome da cerveja nem eu lembro) que tinha o espírito do blues como tema. É algo parecido com dor de corno, mas um pouco mais profundo e abrangente. O blues é tranqüilidade de se saber que não há mais o que dar errado, tudo que podia ir pro beleléu já foi. Só resta aproveitar a solidão dos mortos nessa vida para ouvir o choro de uma guitarra e os gritos de dor de um crioulo ou o choro de um crioulo e os gritos de dor de uma guitarra, dá no mesmo.
Entendida essa parte, volto ao comercial. O cara ( um crioulo) estava numa fazenda e tudo estava perfeito. A plantação era verde e saudável, fazia um lindo dia de sol, sua esposa assoviava feliz enquanto passava a roupa e o cara, em vez de aproveitar tamanha perfeição, olhava pros lados com cara de desconfiado, como se soubesse que seu destino era chorar junto com uma guitarra e não sorrir com a sua mulher. Imediatamente entram centenas de nuvens no céu. Começa a chover e ventar a ponto de destruir a plantação. Seguindo o rumo da desgraça, a mulher do cara começa a berrar, joga o ferro longe, arruma a mala e vai embora largando a casa de pernas pro ar. A porta bate e rebate, uma vez pela força da mulher, outra pela força do vento e o abandono toma conta do ambiente. O cara, que não saiu de sua cadeira, olha em volta e, pela primeira vez nos trinta segundos de um comercial, dá um sorriso. Em seguida, levanta, pega uma cerveja e começa a tocar a guitarra. Fecha no logo da cerveja. Pros apreciadores de um blues.
Nunca me identifiquei tanto com um filme publicitário. É um tipo de alegria estranha que só acontece quando não há com que se alegrar. O blues é alegria que mora em todas as tristezas.
As pessoas que tem o complexo do cantor de blues são como o cara desse filme. Elas não conseguem aceitar a felicidade sem um olhar desconfiado que espera uma tempestade. Elas sabem que o tempo vai mudar e mal podem esperar até que isso aconteça pra relaxar finalmente.
Hoje eu estou quase muito feliz, porque tem esse complexo que não me deixa aceitar a felicidade como ela é. Não consigo evitar pensar no que vou fazer quando tudo acabar. E, por incrível que pareça, tenho menos medo de uma reprise de desgosto do que da alegria inédita.
Eu sei que tudo tem sua primeira vez. Mas o único consolo do cantor de blues é que a primeira vez pode também ser a última.
Gisela Cesario
Às vezes é difícil decidir o que dói mais, escrever ou engolir as palavras. Deixar que elas entrem em contato com tudo que está dentro da gente, deixar que elas se percam num estômago faminto, num coração acelerado ou num fígado mal-humorado.
sexta-feira, dezembro 17, 2010
segunda-feira, novembro 01, 2010
Ou esse ou ésse.
Será que isso tudo vai acontecer?
Ou será que é sonho?
Será o sol saindo?
Será o seu sorriso?
Será você mesmo tudo que eu preciso?
Será sim?
Será sexo?
Será santo?
Será são?
Será que um dia eu sossego?
Seria só tentação?
Será simples?
Será pra sempre?
Sacanagem, socorro, suspiro, suor
Soneto, saudade, surpresa
Só não tem ésse a certeza
O ésse do teu sim é o mesmo do meu será
Será que um dia esse ésse de alguma coisa saberá?
Ou será surdo talvez esse seu coração que não ouve esse meu sussurro
Em ésse de sensação.
Ou será que é sonho?
Será o sol saindo?
Será o seu sorriso?
Será você mesmo tudo que eu preciso?
Será sim?
Será sexo?
Será santo?
Será são?
Será que um dia eu sossego?
Seria só tentação?
Será simples?
Será pra sempre?
Sacanagem, socorro, suspiro, suor
Soneto, saudade, surpresa
Só não tem ésse a certeza
O ésse do teu sim é o mesmo do meu será
Será que um dia esse ésse de alguma coisa saberá?
Ou será surdo talvez esse seu coração que não ouve esse meu sussurro
Em ésse de sensação.
sábado, janeiro 09, 2010
Compulsão
Resistir à compulsão. Tudo que se faz quando não se está escrevendo é resistir à compulsão. Diferente de outras compulsões que nos provocam ressacas ou tumores na garganta, escrever provoca coisas diferentes a cada vez, a única sensação sempre obtida é o alívio. Primeiro satisfazer a necessidade, depois provar o gosto. Escreve-se como se come. É um instinto como qualquer outro, presente em seres agonizantes chamados escritores. A maior prova do desespero do escritor é essa. Escrever sobre o nada. Escrever sobre o escrever. Claro que ninguém quer falar sobre isso, é só uma desculpa para falarmos de algo tão chato que só se justifica por compulsão. Hoje o tema da redação é: mudanças do mundo.
Os alunos aplicados escreverão sobre o aquecimento global, como as pessoas não devem ser malvadas e devem sempre fechar a torneira enquanto escovam os dentes. Os alunos debiloides dirão que o computador mudou o mundo, tudo é pelo celular, será que isso é bom? Importantíssimo questionamento. Já os alunos como eu, que consideram meio ambiente a sala em que estão e computador um treco que se usa pra escrever falarão sobre coisas realmente importantes, como o fato de o mundo só piorar. É colocarão um ponto final depois dessa afirmação só pra dar aquele ar de suspense. E aí dirão algo que ninguém vai entender como: tudo começou com o insulfilm. Que porra é essa? Pensarão os leitores, claro que eles sabem o que é insulfilm, eles não sabem o escritor quer dizer com isso. Bom, dirá o escritor, o insufilm colocado nos carros distanciou os motoristas, tornou-os seres desconhecidos, antes a gente via quem estava do nosso lado, trocavam-se sorrisos ou xingamentos, começavam grandes amores ou ódios curtos. Mas aquilo que trafegava ao nosso lado era, antes de tudo e do insufilm, um ser humano. Na verdade, e aqui o escritor já começou a embaralhar as coisas, antes do insufilm veio a obrigatoriedade de usar cinto. Sabe que existe gente tão nova que não sabe que nós, brasileiros, ignorávamos o cinto? Não estou hoje, dirá o escritor de saco cheio, com disposição para aturar quem repete o que ouve no jornal nacional, estatísticas mascaradas, uma vergonha para os profissionais de estatística e de jornalismo.
Nossa vida era melhor, diz o escritor, era uma vida de verdade. Será que as pessoas não percebem que o existe por trás do cinto, do insufilm, do radar e de tudo o mais é dinheiro, é venda. Venda é diferente de vida. Nenhum cinto vai me proteger porque eu só ando a 60 km por hora no máximo, porque nossas ruas são todas esburacadas e cheias de carros engarrafados. O insufilm só serve para você deixar de paquerar o seu vizinho, que bem podia ser coisa boa, mas você não ta vendo. Não tenho nem estômago para falar da lei seca, de tanto que já bebi pra esquecer. Só posso dizer mais uma coisa, finalizará o escritor, quando pensávamos que a pior epidemia do mundo era a música eletrônica, inventaram boates cariocas com música sertaneja. Aqui é o inferno? É claro que sim, basta olhar o balão da lei seca.
Gisela Cesário.
Os alunos aplicados escreverão sobre o aquecimento global, como as pessoas não devem ser malvadas e devem sempre fechar a torneira enquanto escovam os dentes. Os alunos debiloides dirão que o computador mudou o mundo, tudo é pelo celular, será que isso é bom? Importantíssimo questionamento. Já os alunos como eu, que consideram meio ambiente a sala em que estão e computador um treco que se usa pra escrever falarão sobre coisas realmente importantes, como o fato de o mundo só piorar. É colocarão um ponto final depois dessa afirmação só pra dar aquele ar de suspense. E aí dirão algo que ninguém vai entender como: tudo começou com o insulfilm. Que porra é essa? Pensarão os leitores, claro que eles sabem o que é insulfilm, eles não sabem o escritor quer dizer com isso. Bom, dirá o escritor, o insufilm colocado nos carros distanciou os motoristas, tornou-os seres desconhecidos, antes a gente via quem estava do nosso lado, trocavam-se sorrisos ou xingamentos, começavam grandes amores ou ódios curtos. Mas aquilo que trafegava ao nosso lado era, antes de tudo e do insufilm, um ser humano. Na verdade, e aqui o escritor já começou a embaralhar as coisas, antes do insufilm veio a obrigatoriedade de usar cinto. Sabe que existe gente tão nova que não sabe que nós, brasileiros, ignorávamos o cinto? Não estou hoje, dirá o escritor de saco cheio, com disposição para aturar quem repete o que ouve no jornal nacional, estatísticas mascaradas, uma vergonha para os profissionais de estatística e de jornalismo.
Nossa vida era melhor, diz o escritor, era uma vida de verdade. Será que as pessoas não percebem que o existe por trás do cinto, do insufilm, do radar e de tudo o mais é dinheiro, é venda. Venda é diferente de vida. Nenhum cinto vai me proteger porque eu só ando a 60 km por hora no máximo, porque nossas ruas são todas esburacadas e cheias de carros engarrafados. O insufilm só serve para você deixar de paquerar o seu vizinho, que bem podia ser coisa boa, mas você não ta vendo. Não tenho nem estômago para falar da lei seca, de tanto que já bebi pra esquecer. Só posso dizer mais uma coisa, finalizará o escritor, quando pensávamos que a pior epidemia do mundo era a música eletrônica, inventaram boates cariocas com música sertaneja. Aqui é o inferno? É claro que sim, basta olhar o balão da lei seca.
Gisela Cesário.