quarta-feira, outubro 23, 2013

casa de poesia

-Poesia inspirada em cânticos 1, 15-17

Vamos viver numa casa de poesia

Fazer amor em versos

Deitar em rimas

Nos alimentar de suspiros e melodia

Vamos encher os armários de palavras

As gavetas de vírgulas

E a geladeira de sonetos

Vamos respirar estrelas

E guardar o céu no travesseiro

Vamos deitar com a eternidade

E acordar felizes pra sempre

Vamos todo dia

Poesia e mais poesia

E se enjoar, pára

E se enjoar, prosa

Mas se você se apaixonar

Vai viver letra de música

Que eu vou tocar na varanda

Tendo o céu como plateia

E teu corpo como banda

Tendo gozo como acorde

E a morte como quem dorme


Gisela Cesario.

terça-feira, outubro 08, 2013

Salvem as baratas!


Durante as últimas décadas, acredito que todos os seres humanos se depararam com a súplica “ Salvem as baleias!”, todo mundo já viu aquelas imagens horrendas de um arpão sendo jogado na água, depois o sangue toma conta da água, o repórter faz uma voz embargada e informa que aquela era a última baleia branca de bolinhas pretas.

Nada tenho contra baleias, nem contra micos leões dourados, nem contra bicho nenhum, o que me intriga é a naturalidade com que aceitamos que certos animais nasceram pra virar comida, como bois e galinhas, e outros nasceram para serem preservados.

Não me venha falar em equilíbrio ambiental, eu sei, mas o que estou dizendo nada tem a ver com isso. Tem a ver com o fato de que na china, todo mundo acha normal comer um cachorro, aqui você seria quase um canibal.

Na Índia, é um absurdo consumir a carne da vaca, que é sagrada, aqui a gente comete um sacrilégio a cada churrasco de domingo.

No fundo, é tudo uma questão de cultura, ou da falta dela. Mas vou chegar logo ao ponto que me levou a lutar pelas baratas. Eu detesto ver animais sofrerem, reconheço minha máxima culpa cada vez que coloco um pedaço de salmão na boca, não fui eu quem matou, mas alguém matou porque gente que nem eu come, então também sou culpada.

Só um parêntese -( você já parou para pensar que os peixes morrem sufocados, asfixiados, como se de repente aparecesse alguém e enfiasse sua cabeça numa bacia de água até você parar de respirar?).

Não vou ficar explicando sobre cada morte animal, mas todas têm em comum a crueldade. Olha, eu não sou nenhuma Madre Teresa, há duas semanas assassinei covardemente um filhote de barata com um chinelo. Mas, desde então, veio a luz.

Costumamos classificar determinados bichos como pragas para justificar seu extermínio. As pragas transmitem doenças, essa é verdade inquestionável do mundo. Bom, os cachorros também transmitem doenças, os gatos, os cavalos. Inclusive, eu tenho absoluta certeza que já peguei mais doenças de homens do que de baratas, até porque não costumo me relacionar sexualmente com elas.

O assento do metrô transmite doenças, a porta do banheiro, você sabe que essa lista não tem fim. Por isso, nós, humanos, temos anticorpos, senão morreríamos cada vez que alguém espirrasse ao nosso lado. 

Sei o quanto isso parece loucura, mas acredito que tudo que tem vida tem alma, plantas, bichos, pensei ainda mais nisso depois do dia de São Francisco de Assis ( lembra de irmão sol, irmã lua?)

Não virei hippie (ainda), mas decidi solenemente que não vou mais matar nenhuma barata, não vou pisar em formigas (cara, sério, isso é tão brutal), controlarei firmemente minha repugnância a lesmas, jamais darei uma vassourada num rato. Ou seja, se depender de mim, a insetisan vai morrer de fome.

Nenhum desses bichos oferece perigo algum para mim, nunca fui ameaçada por uma barata, nenhum rato jamais abusou de mim, as formigas nem sabem que eu existo.

Você já reparou que o ser humano é o único animal que mata outro só porque está com nojo? Dá para imaginar uma onça destruindo um bambi e deixando ele pra lá, fazendo aquela cara de “odeio esses viadinhos”? É isso que a gente faz com uma barata, mata, faz cara de besta e segue a vida.

Alguém deve estar imaginando que minha casa deve ser um lixo completo, mas eu digo que não, aqui é um lugar onde há respeito, cada um na sua, a sujeira das “pragas” não está nelas, está no nosso esquisito pensamento.


E digo mais, um dia também vou parar de comer salmão!

sexta-feira, setembro 13, 2013

Homens- como se dar bem na internet ou manual do pegador on-line

Veja bem, não me considero a pessoa mais experiente em namoro pela internet, mas há  algumas coisas bem básicas que um homem NÃO deve fazer se quiser ganhar alguma mulher.

1- Não coloque fotos de boné e óculos escuros, é impossível saber se alguém é bonito ou não assim, parece mais um disfarce,e acabamos por decidir que não.

2- Não apareça segurando qualquer tipo de bebida, se for alcoólica, vc vai parecer um cachaceiro, se não for, vai parecer um boiola.

3-Não use fotos em que vc cortou a sua ex, mas dá pra ver que ela estava ali, aparece uma unha, ou um pedaço de cabelo. Isso é falta de respeito.

4-Pode botar foto de sunga, mas evite o estilo garoto do fantástico, todo produzido para foto.

5- Por mais lindos que sejam seus filhos, mantenha-os fora das fotos de perfil. Isso também é falta de respeito e dá a impressão de que vc é meio problemático.

6-Evite ainda colocar aquela foto que vc tirou numa viagem na neve, todo encasacado, com gorro e tudo mais. É inútil, não pra saber como vc é e só serve pra mostrar que vc viajou.

7-Não se descreva demais, nem faça muitas piadas no texto. Só o básico tá bom, ninguém escolhe um homem pelo filme que ele viu ou o livro que leu.

8-Não se limite. Dispensar mulheres muito novas ou muito mais velhas é besteira, vc pode olhar e gostar, cara que limita muito geralmente não gosta da coisa.

9-Depois do primeiro contato, parta logo pro abraço, não fique testando a paciência dela no MSN ou no skype,  vc corre o risco de descobrir que ela é chata antes de saber se é gostosa, ou pode ser que ela descubra que vc é chato antes de conhecer o melhor da sua personalidade...

10-Pague a porcaria de um plano que permita que você veja o que te escrevem  e se comunique, não fique colocando email em código, faz vc parecer pão duro ou pobre ou as duas coisas.

11- Por último, jamais use o plural! Não fale, oi meninas, ou mulheres do Brasil, toda mulher quer ser única, fale somente com ela, tipo só pra você.


12-Se depois de seguir todas essas regras,vc continuar liso, desista, pegue o dinheiro do seu plano e parta para uma boa casa de massagem.

segunda-feira, julho 08, 2013

O fim de Hanói

Terminei de ler Hanoi, impressionante livro de Adriana Lisboa, mais impressionante ainda pelo fato de eu nunca ter ouvido falar dessa escritora e me deparar com um texto tão sensível e preciso. Como se fosse possível esgotar em palavras cada pequena alteração de nossas almas. Não é uma dissecação de sentimentos, mas um aprofundamento, que parece o único caminho para se entender ou pra se desistir de se entender de vez.

Lendo essa história melancólica, acho que a melancolia é uma tristeza conformada, uma tristeza que até gosta de ser triste, que não lembra mais como é a alegria. Sei que estou influenciada pelo texto devastador de Adriana e aproveito essa inspiração de Hanói para narrar o que parece ser o meu próprio fim.

Esse pensamento da viagem, que existe no livro, é mais do que recorrente para mim, como se estar em outro lugar fosse simplesmente me transformar em outra pessoa. Como se fossem os cenários, e não as atitudes dos personagens, os verdadeiros responsáveis pelo desenrolar da história.

Pensei na minha cidade, no Rio que eu chamo de meu, o que tem de meu aqui? Com o olhar ainda embaçado pelas imagens do livro, me vi na decadência da cidade ou vi a minha decadência na cidade.

Se pudéssemos conversar, eu e o Rio de janeiro, ele poderia responder muito bem a todas as minhas acusações. Eu diria que quero as praias limpas, menos pessoas, uma niemieyer sorridente, lugares para estacionar o carro na zona sul, sair de noite preocupada só com os bandidos e não com a polícia, avançar tranquilamente os sinais da avenida atlântica, estacionar na calçada, subir a favela, fumar na sala de reunião, ir ao motel, olhar o mar na joatinga, beber cerveja de garrafa na areia da praia, encostar num carro numa esquina do baixo Leblon e esperar a noite se transformar em príncipe encantado. Do que mais tenho saudade? Aí o Rio simplesmente ia ria na minha cara, diria olha pra você. Sim, olho para mim.

Eu também não sou mais maravilhosa, perdi a esperança, perdi a vontade de rir,de me apaixonar, nada me tira do estado melancólico em que estou há não sei quanto tempo. Não podem ter sido só as mudanças da cidade que me deixaram desse jeito. Eu já tive peito pra enfrentar engarrafamentos e enchentes, mas agora um vento frio é suficiente para roubar minha energia, esmagar meus planos.

Acho que o Rio também queria o meu sorriso, o meu jeito otimista, a minha coragem, a minha ousadia que chegava a se decepcionar com o previsível, a minha vontade e determinação de viver uma utopia, como se mágica fosse eu e não a cidade.

Por isso, hoje, ao imaginar Hanói, eu vi o Rio e no Rio eu vi uma pessoa que também não é mais a mesma. Já não sei quem reflete as desgraças de quem, se eu ou a cidade. O que é espelho e o que sou eu.

Sinto como se a minha volta não houvesse pessoas ou coisas, mas destroços, restos do que um dia foi a minha vida, feito uma festa que acabou e levou embora o brilho, talvez imaginário, do lugar, deixando a mostra um sofá meio rasgado, o chão sujo, e rugas, muitas rugas num rosto que parece estranhamente triste e ao mesmo tempo imune ao sentimento.

Eu e o Rio não estamos desesperados, não estamos chorando, nem berrando, estamos aqui, sendo revistados por policiais num eterno engarrafamento, vendo nossas estações se misturarem, perdendo a noção de quando brilhar o sol e quando chover a chuva, sentindo frio e calor em horas errados. Estamos cobertos pela névoa do esquecimento e da melancolia, sabemos que o Cristo está lá, mas não conseguimos mais vê-lo. Sabemos que a Urca e a beleza dos morros existem, apesar de tudo, inclusive da feiura de nossas almas.

Não há retorno, somente continuação, eu não ficarei mais jovem nem o rio voltará a ser maravilhoso como antes. Vamos apenas continuar tentando nos amoldar um ao outro, com a estranheza de um casal de idosos que foi dormir com 20 anos e acordou com 80. Vamos fazer cara de tudo bem, seguir em frente. Ou seguir em círculos, na esperança bem franzina de nos encontrar em algum ponto do caminho.

sábado, março 23, 2013

cárcere



Pelas leis brasileiras, ninguém pode ficar preso mais de 30 anos. O Universo, porém, não está nem aí pra isso. Eu estou presa nesse corpo há 39 anos e alguns meses e dias. Condenada a uma pena desconhecida por um crime ignorado. Estou presa num corpo cada vez mais cansado e menos disposto a cooperar comigo. Muitas vezes quero andar mais e ouço um solene não dos meus pés, meus joelhos cismam de doer se eu tentar correr como antes. No espelho me olham uns olhos tristes, com rugas em volta, uns olhos fartos de tudo que já viram, que não acreditam ou preferem nem olhar pro que estão vendo agora.

Meus pensamentos estão detidos numa cabeça gasta, que faz a memória me trair. Quem eu era mesmo? Já estou aqui nesse corpo há tanto tempo, vendo ele se desfazer, o que vim fazer aqui?

Me invade uma sensação de que eu sou uma árvore ou um poste, algo que permanece enquanto as coisas passam. Passam por mim os verões, os empregos, os homens, os natais, passa a dor e alegria, passam dias e mais dias, por estranho que pareça, as noites passam menos ou vai ver que eu não reparo. Passa até a eternidade que eu jurava era pra sempre.
Não existe prisão perpétua. O cadáver é o fim do cárcere. Enterrem, queimem, doem pra USP, não me interessa. No dia em que sair desse corpo, vou, por contraditório que soe, finalmente respirar.

Sim, o ar está cheio de liberdade, quero também ser ar ou então nem isso, não quero moléculas, quero passar também, sair do meu ponto de observação, não ver mais o que virá. Quero ir para algum lugar onde eu mesma não esteja, nem ninguém, nem nada. Onde nem o vazio habita.

O fim do ser é o não ser. Sem nome, peso, CPF, cor dos olhos, sem sonhos, currículo, fonte de renda, sem chance, sem perda, sem obrigação. Sem palavras, sem explicações.

Adeus corpo cruel, tchau cabeça complicada, bye bye Brasil, mundo e a puta que pariu.

A escrita é alma tentando fugir do corpo, ela tenta pela boca e depois pelas mãos, mas ela nunca consegue sair da prisão da cabeça.

Hoje vou olhar meu corpo, minha cela, e decidir em que canto vou dormir, se no tornozelo ou no cotovelo, posso também me espalhar e dormir no corpo inteiro. Pena que não há surpresas, conheço cada canto desse cárcere. E mesmo assim não acho a saída.

Algumas palavras, levadas por uns pensamentos, acabaram de fugir, mas me deixaram aqui, como sempre, elas nunca me levam com elas. Promessas. Agora eu acredito no fim ou só no fim eu acredito agora.

Contradição é vida. A favor é morte. Um lado só, adeus dúvidas e dívidas e dádivas e proparoxítonas. Adeus, poesia boba.

Hoje é dia 23 de março de 2013.Estou presa aqui. Ainda.