Tem uma piada muito conhecida sobre um cara que sofre um acidente de carro e sai desesperado, todo ensangüentado, preocupado apenas com o prejuízo do carro, gritando “Meu carro,meu carro..”. Alguém vê o cara todo machucado e fala: Esquece seu carro, olha o seu braço ( o cara tinha perdido a mão). Horrorizado, ele olha na direção do que devia ser o braço e grita: “Meu rolex! Meu rolex! Não!”.
Sempre penso nessa piada quando leio reclamações feitas por moradores de lugares nobres a respeito do que chamamos de “população de rua”. Aquelas pessoas que fingimos que não vemos porque não agüentamos pensar no porquê eles estão ali. Como no caso da piada do rolex, não importa que exista um ser humano meio morto meio vivo na calçada,as pessoas passam e gritam: “meu IPTU, meu IPTU!”
É uma injustiça alguém pagar um dos IPTUS mais caros do Brasil e não ser poupado da terrível visão da pobreza, pessoas que pagam um IPTU tão alto deviam ter o direito de andar em ruas suecas, com montinhos de neve acumulados aos pés dos postes.
Que o Iptu é caro, é. Que a calçada devia ser limpa, devia. Que temos o direito de exigir nossos direitos, temos. Mas que o maior direito de todos é o direito à vida, imagino que ninguém tem dúvida.
Após reclamar do IPTU, o argumento normalmente é o “Poder Público devia construir abrigos pra essa gente”. Argumento normalmente rebatido com “Isso já existe, eles não vão porque não querem.” Essa tese pode ser desenvolvida inclusive com dados estatísticos que mostram que, na verdade, todos os mendigos são, por baixo dos trapos, milionários disfarçados, pois ganham cerca de mil reais por dia pedindo esmola. As crianças pedem para mães que moram em mansões em são Conrado ou gastam tudo fazendo escova progressiva. Os paralíticos largam a cadeira de rodas e saem andando para suas coberturas na Vieira Souto, onde ainda fazem musculação antes de voltar pra dormir embaixo da marquise do Bob’s.
Por que raios nos preocupamos com as calçadas em vez de nos preocuparmos com as pessoas, assim como o cara da piada se preocupa com o rolex em vez do braço?
A sociedade, da qual somos parte, está mutilada, sangrando, agonizando, sem ter pra onde ir, nem onde tomar banho, nem o que comer, pra esquecer de tanta miséria, as crianças se drogam, fazem sexo, geram outras crianças que pedem mais esmolas e dormem em mais calçadas.
Perdemos, todos nós, nossa dignidade, nosso direito básico à saúde, educação, moradia. Perdemos nosso direito ao banho do outro, ao prato de comida do outro, cada pessoa ( sim, são pessoas!) dessas é um membro, um membro da sociedade que nós perdemos. Mas nós, como o cara do rolex, não estamos preocupados com nossos membros. Nós queremos é saber onde foi parar o nosso IPTU.
Não sei qual a solução. Mas talvez a solução dos meus e dos nossos problemas esteja em parar de pensar nesses problemas e começar a pensar nos problemas dos outros, que talvez sejam um pouco mais graves e talvez, só talvez, mereçam ocupar a cabeça de quem tem consciência para lutar pelos seus direitos.
Às vezes é difícil decidir o que dói mais, escrever ou engolir as palavras. Deixar que elas entrem em contato com tudo que está dentro da gente, deixar que elas se percam num estômago faminto, num coração acelerado ou num fígado mal-humorado.
quinta-feira, dezembro 13, 2007
sábado, novembro 24, 2007
montanha russa
“O amor não tem que ser uma história com princípio, meio e fim”.
Fábio Junior. ( antes dos seus mais de 10 casamentos)
A vida é feita de ciclos. Isso não é novidade. A própria vida é um ciclo, com princípio, meio e fim. Dentro do grande ciclo da vida, há milhares de outros e dentro desses milhões e milhões. Dez minutos na sala de espera do dentista é um ciclo que pode se iniciar com um súbito interesse numa manchete de uma revista de fofocas e terminar com a não menos súbita lembrança do pavoroso tratamento a ser enfrentado. Depois que a recepcionista te chama e diz que é sua vez, não há como continuar a ler a revista e fingir que você não está no dentista. Aquele momento, como todos que já foram, não volta mais. É mais fácil perceber um grande ciclo como a adolescência, que a gente não vê como nem quando termina, a gente de repente se dá conta que todas aquelas coisas maravilhosas e empolgantes são chatas e cansativas até pensar na célebre frase “não tenho mais idade pra isso”. Não adianta injetar botox, ter cara de 18 anos, seu coração é adulto, não bate mais por qualquer coisa, não está sujeito às mesmas emoções, boas ou ruins.
Da dura realidade dos ciclos, a mais dura é a realidade da morte, nossa única certeza da vida. Só que, ao admitir que esse grande ciclo da vida é feito de muitos outros temos que encarar várias mortes antes da nossa própria, não só mortes literais de amigos e parentes, mas mortes de sonhos, de projetos, esperanças e, claro, amores, pior, amores eternos. O pior num caso desses não é ter que recomeçar, é saber que um dia vai ter que reterminar. Porque tudo que começa termina. E tudo que recomeça retermina. E assim vai.
Mais um ciclo se fecha em minha vida, um dos melhores e piores como um bom emocionante ciclo deve ser. Agora estou no limbo, mas acho que limbo não é ciclo porque não é diferente no começo e no fim. Limbo é sempre igual até que o terremoto de o início de um ciclo termine com ele. O limbo é triste, me sinto do lado de fora de um bolha onde está rolando a maior festa. Todos vivem seus ciclos enquanto eu os observo do meu limbo. Uma grande imbecilidade quando a gente não consegue resistir ao limbo é tentar voltar a um ciclo já fechado. Em relacionamentos também se tenta colocar botox e fazer plástica de vez em quando, mas não adianta, um amor e uma bochecha de verdade são insubstituíveis. Adão e Eva depois de comerem a maçã fecharam um ciclo, o do paraíso. Daí em diante não adiantava mais fingirem que não estavam nus, que não tinham vergonha, eles sabiam. E quanto mais a gente sabe menos a gente quer. Você pode escolher a maneira que quer viver mas não pode escolher se vai dar certo ou errado e por quanto tempo. Por isso, o melhor é concentra-se no que a gente não sabe, no que (ainda) não deu errado. Consertar é quebrar duas vezes, ou três ou mil. Um brinquedo novo, do qual eu nada saiba, um truque de mágica que eu não tenha descoberto como foi feito, um ciclo que comece sem que eu perceba, sem que eu tenha consciência que ele terá meio e fim. Um paraíso onde eu não saiba que existe a maçã e que eu um dia a comerei. É disso que eu preciso agora. Ou talvez daqui a pouco. Agora é só o limbo. E paz pra saber que está tudo bem, o limbo também é necessário. Montanha russa sem fila não tem a menor graça.
Fábio Junior. ( antes dos seus mais de 10 casamentos)
A vida é feita de ciclos. Isso não é novidade. A própria vida é um ciclo, com princípio, meio e fim. Dentro do grande ciclo da vida, há milhares de outros e dentro desses milhões e milhões. Dez minutos na sala de espera do dentista é um ciclo que pode se iniciar com um súbito interesse numa manchete de uma revista de fofocas e terminar com a não menos súbita lembrança do pavoroso tratamento a ser enfrentado. Depois que a recepcionista te chama e diz que é sua vez, não há como continuar a ler a revista e fingir que você não está no dentista. Aquele momento, como todos que já foram, não volta mais. É mais fácil perceber um grande ciclo como a adolescência, que a gente não vê como nem quando termina, a gente de repente se dá conta que todas aquelas coisas maravilhosas e empolgantes são chatas e cansativas até pensar na célebre frase “não tenho mais idade pra isso”. Não adianta injetar botox, ter cara de 18 anos, seu coração é adulto, não bate mais por qualquer coisa, não está sujeito às mesmas emoções, boas ou ruins.
Da dura realidade dos ciclos, a mais dura é a realidade da morte, nossa única certeza da vida. Só que, ao admitir que esse grande ciclo da vida é feito de muitos outros temos que encarar várias mortes antes da nossa própria, não só mortes literais de amigos e parentes, mas mortes de sonhos, de projetos, esperanças e, claro, amores, pior, amores eternos. O pior num caso desses não é ter que recomeçar, é saber que um dia vai ter que reterminar. Porque tudo que começa termina. E tudo que recomeça retermina. E assim vai.
Mais um ciclo se fecha em minha vida, um dos melhores e piores como um bom emocionante ciclo deve ser. Agora estou no limbo, mas acho que limbo não é ciclo porque não é diferente no começo e no fim. Limbo é sempre igual até que o terremoto de o início de um ciclo termine com ele. O limbo é triste, me sinto do lado de fora de um bolha onde está rolando a maior festa. Todos vivem seus ciclos enquanto eu os observo do meu limbo. Uma grande imbecilidade quando a gente não consegue resistir ao limbo é tentar voltar a um ciclo já fechado. Em relacionamentos também se tenta colocar botox e fazer plástica de vez em quando, mas não adianta, um amor e uma bochecha de verdade são insubstituíveis. Adão e Eva depois de comerem a maçã fecharam um ciclo, o do paraíso. Daí em diante não adiantava mais fingirem que não estavam nus, que não tinham vergonha, eles sabiam. E quanto mais a gente sabe menos a gente quer. Você pode escolher a maneira que quer viver mas não pode escolher se vai dar certo ou errado e por quanto tempo. Por isso, o melhor é concentra-se no que a gente não sabe, no que (ainda) não deu errado. Consertar é quebrar duas vezes, ou três ou mil. Um brinquedo novo, do qual eu nada saiba, um truque de mágica que eu não tenha descoberto como foi feito, um ciclo que comece sem que eu perceba, sem que eu tenha consciência que ele terá meio e fim. Um paraíso onde eu não saiba que existe a maçã e que eu um dia a comerei. É disso que eu preciso agora. Ou talvez daqui a pouco. Agora é só o limbo. E paz pra saber que está tudo bem, o limbo também é necessário. Montanha russa sem fila não tem a menor graça.
sábado, julho 28, 2007
Progresso
Poucas pessoas já se deram conta disso. Talvez porque estivessem ocupadas com coisas mais importantes. Então cumpro meu papel na humanidade e revelo: o controle remoto às vezes faz você andar mais do que se ele não existisse.
Muitas pessoas ficam surpresas ao lembrar que viviam sem celular, pois se você tiver mais de 30 vai lembrar de um tempo ainda mais remoto, ótimo adjetivo...um tempo em que não existia ou quase não existia controle remoto, a gente levantava pra mudar a tv pra outro canal. Nossas opções eram TVE, Globo, Manchete, Record, SBT e por um tempo que talvez tenha sido um sonho houve um canal 13.
Na hora do comercial, a maioria de nós fazia como a Marta Suplicy na Crise aérea, relaxava e gozava, mas na hora de um programa ruim, não tinha jeito, era levantar e mudar de canal.
Isso pode parecer totalmente absurdo hoje que temos mais de 60 ou 70 ou 100 canais dependendo do plano que o senhor vai estar assinando...
O que acontece hoje é que existem o controle da TV, o do som, o da TV a cabo, o do DVD, o universal do camelô que você comprou no dia em que pensou que nunca mais encontraria alguns dos outros já citados. Fato é que hoje se anda muito mais. Apesar de terem sido inventadas caixinhas para guardar todos esses controles juntos, eles nunca, jamais estão ali. As caixinhas guardam canetas, propagandas de pizzaria, marcadores de livro perdidos, mas os controles mesmo sempre se escondem. E onde? Onde estão? Você procura na cozinha, na sala, embaixo das almofadas, no quarto, alguém pode ter perdido o do quarto e levado pra lá, na porra da geladeira, mas ele não está, Onde? Você anda mais, vasculha sua estante, tira do lugar livros que te olham de cara feia tipo “estava dormindo aqui há 15 anos e vem você me perturbar por causa de um controle remoto?” Pessoas mais desesperadas relatam que já foram capazes de mexer com seus próprios dedos no aparelho da TV ou da Net ou TVA ou whatever. A maioria simplesmente continuou andando pela casa até encontrar o pobre do controle embaixo de uma roupa pronta pra ser colocada na máquina de lavar.
Claro que a primeira atitude, ou melhor a segunda, a primeira é mudar de canal, a segunda atitude de quem encontra um controle é coloca-lo na caixinha, espremido entre os anúncios de pizza. Mas ele voltará a sumir, eu sei, você sabe, todos nós sabemos que passaremos o resto de nossos domingos passeando pela casa em busca do controle perdido.
Então se você contar, em metros, quanto você andava antes, quando o controle não existia e havia apenas uns 7 canais, e agora com controle e mais de 70 canais, qual o menor percurso?
É só imaginar que o controle procurado estivesse sempre em cima da TV, era só até lá que você teria de ir. Chega a ser engraçado como às vezes, vamos até a TV para pegar o controle que vai mexer na TV.
Estamos viciados, somos andarilhos errantes em busca da diversão que jamais virá.
Pois o mais difícil não é encontrar o controle depois de feita a são silvestre pelos cômodos da casa.
O impossível é encontrar um, unzinho só, programa que valha a pena nesse mundo de canais inúteis.
Ainda chamam isso de progresso.
Muitas pessoas ficam surpresas ao lembrar que viviam sem celular, pois se você tiver mais de 30 vai lembrar de um tempo ainda mais remoto, ótimo adjetivo...um tempo em que não existia ou quase não existia controle remoto, a gente levantava pra mudar a tv pra outro canal. Nossas opções eram TVE, Globo, Manchete, Record, SBT e por um tempo que talvez tenha sido um sonho houve um canal 13.
Na hora do comercial, a maioria de nós fazia como a Marta Suplicy na Crise aérea, relaxava e gozava, mas na hora de um programa ruim, não tinha jeito, era levantar e mudar de canal.
Isso pode parecer totalmente absurdo hoje que temos mais de 60 ou 70 ou 100 canais dependendo do plano que o senhor vai estar assinando...
O que acontece hoje é que existem o controle da TV, o do som, o da TV a cabo, o do DVD, o universal do camelô que você comprou no dia em que pensou que nunca mais encontraria alguns dos outros já citados. Fato é que hoje se anda muito mais. Apesar de terem sido inventadas caixinhas para guardar todos esses controles juntos, eles nunca, jamais estão ali. As caixinhas guardam canetas, propagandas de pizzaria, marcadores de livro perdidos, mas os controles mesmo sempre se escondem. E onde? Onde estão? Você procura na cozinha, na sala, embaixo das almofadas, no quarto, alguém pode ter perdido o do quarto e levado pra lá, na porra da geladeira, mas ele não está, Onde? Você anda mais, vasculha sua estante, tira do lugar livros que te olham de cara feia tipo “estava dormindo aqui há 15 anos e vem você me perturbar por causa de um controle remoto?” Pessoas mais desesperadas relatam que já foram capazes de mexer com seus próprios dedos no aparelho da TV ou da Net ou TVA ou whatever. A maioria simplesmente continuou andando pela casa até encontrar o pobre do controle embaixo de uma roupa pronta pra ser colocada na máquina de lavar.
Claro que a primeira atitude, ou melhor a segunda, a primeira é mudar de canal, a segunda atitude de quem encontra um controle é coloca-lo na caixinha, espremido entre os anúncios de pizza. Mas ele voltará a sumir, eu sei, você sabe, todos nós sabemos que passaremos o resto de nossos domingos passeando pela casa em busca do controle perdido.
Então se você contar, em metros, quanto você andava antes, quando o controle não existia e havia apenas uns 7 canais, e agora com controle e mais de 70 canais, qual o menor percurso?
É só imaginar que o controle procurado estivesse sempre em cima da TV, era só até lá que você teria de ir. Chega a ser engraçado como às vezes, vamos até a TV para pegar o controle que vai mexer na TV.
Estamos viciados, somos andarilhos errantes em busca da diversão que jamais virá.
Pois o mais difícil não é encontrar o controle depois de feita a são silvestre pelos cômodos da casa.
O impossível é encontrar um, unzinho só, programa que valha a pena nesse mundo de canais inúteis.
Ainda chamam isso de progresso.
quarta-feira, março 14, 2007
Tempo
As horas são redondas.
Mesmo se você espirrar, não adianta.
As horas não mudam de formato.
Os ponteiro podem voar com um espirro.
Mas eles são cínicos demais pra admitir.
Os dias são verticais e estreitos.
Teoricamente, todos guardam 24 bolinhas redondas.
No entanto, pessoas que espirram muito sempre ou já espirraram muito uma vez só na vida garantem que alguns dias armazenam mais ou menos bolinhas dependendo da quantidade de espirros da humanidade.
O tempo é uma doença como a gripe.
Chega e passa e a gente só percebe depois.
Tossir é diferente.
Uma tosse pode ter a gravidade de um ano.
Algumas pessoas perdem o ano porque tossiram demais.
Os anos são retângulos, armazenam, obviamente, os dias.
Um século tem o formato de um bigode.
Branco, porque já está velho.
Dane-se o tempo.
Chutem-se as horas.
Derrubem-se os dias.
A vida é uma linha, reta, torta ou muito torta, dependendo de quanto você espirra ou tosse ou mexe com as bolinhas das horas.
A linha acaba e a morte é um ponto final.
Esse ponto não é tosse nem espirro, é o último suspiro.
Gisela Cesario
Mesmo se você espirrar, não adianta.
As horas não mudam de formato.
Os ponteiro podem voar com um espirro.
Mas eles são cínicos demais pra admitir.
Os dias são verticais e estreitos.
Teoricamente, todos guardam 24 bolinhas redondas.
No entanto, pessoas que espirram muito sempre ou já espirraram muito uma vez só na vida garantem que alguns dias armazenam mais ou menos bolinhas dependendo da quantidade de espirros da humanidade.
O tempo é uma doença como a gripe.
Chega e passa e a gente só percebe depois.
Tossir é diferente.
Uma tosse pode ter a gravidade de um ano.
Algumas pessoas perdem o ano porque tossiram demais.
Os anos são retângulos, armazenam, obviamente, os dias.
Um século tem o formato de um bigode.
Branco, porque já está velho.
Dane-se o tempo.
Chutem-se as horas.
Derrubem-se os dias.
A vida é uma linha, reta, torta ou muito torta, dependendo de quanto você espirra ou tosse ou mexe com as bolinhas das horas.
A linha acaba e a morte é um ponto final.
Esse ponto não é tosse nem espirro, é o último suspiro.
Gisela Cesario
segunda-feira, fevereiro 12, 2007
Culpa
Hoje o tema da redação é a culpa. Dizem que a culpa é um sentimento que vem do pecado original, culpa da eva, que ofereceu a maçã pro Adão e dele que comeu. Por isso, passamos os dias nos sentindo culpados de algo que não temos bem certeza o que é. Precisamos sempre de alguém pra dizer, calma, a culpa não é sua. Cada vez que dizemos isso, estamos admitindo a existência da culpa, ela não é minha, não é sua, pode até não ter dono, como dizemos “não é culpa de ninguém”, mesmo sendo de ninguém, a culpa está aí, livre, leve e solta, rolando na ribanceira, pronta pra te atropelar.
Pensa bem, o que você fez de errado, ficou sentado no metrô ignorando a velhinha cheia de sacolas, mentiu pro namorado ou namorada, colou na prova, roubou no troco, passou no sinal vermelho, comeu sobremesa. Motivo pra se sentir culpado é o que não falta. E se faltar, a culpa é sua que está esquecido, sim, porque você deve ter feito algo errado. Quando um relacionamento termina, é normal a gente se perguntar aonde errou, de quem foi a culpa. Convencidos de que a culpa não foi nossa, passamos a pensar nos atos do outro, que deve ter sido culpado. Se mesmo assim, parecer que não houve erro, que tudo simplesmente tinha que acontecer assim, passamos a pergunta eterna, o que fiz pra merecer isso?. Aí já consideramos que estamos redimindo pecados de outra vida ou de um tempo tão remoto que não conseguimos lembrar. Foi aquele picolé que você roubou quando estava na primeira série, foi a vez que você derrubou o castelo de areia do seu priminho, foi aquele dia que você desejou que o professor fosse atngido por um raio só pra não ter prova. Não adianta. Somos culpados. A culpa é tão inevitável quanto o mais inevitável dos acontecimentos. Até a morte, o mais previsível dos fatos, é motivo de arrependimento. Morre-se de velho sim, mas poder-se-ia ter morrido mais velho, se não fumasse, nem bebesse, nem nunca tivesse comido um grama de gordura trans, se tivesse tomado dois copos de chá verde, oito de água, consumido ômega 3...quem sabe pode-se criar uma pessoa numa bolha, consumindo só coisas saudáveis e essa pessoa nunca, nunca, jamais morrerá, o que será uma tremenda tortura, já que o bom da vida é ir se matando aos pouquinhos...
Pensa bem,o que você fez de errado, por que esses fios de cabelos brancos, por que essas rugas, por que esse arranhão do lado esquerdo da porta do seu carro.
Fala a verdade, quando você diz bom dia, está mesmo é com vontade de dizer vá pro inferno e não enche o meu saco. Quando levanta pra dar lugar a uma velhinha pensa por que essa desgraçada não tomou um táxi ou então tomara que Deus me recompense e eu consiga uma promoção.
Além de culpados, a maioria de nós é miserável. Pensa que só porque fez uma coisinha boa à toa já é a madre teresa de calcutá, aí, se a recompensa não vem, o cão fica desobediente ,e o homem e a mulher ficam com raiva. Com raiva da vida, do destino, pensam o que fiz pra merecer isso, acabam fazendo alguma coisa mesmo, gritam, traem, chutam o balde. Pra quê? Pra se sentir culpado depois. A culpa é mola do mundo. Que graça teria nunca poder perdoar nem ser perdoado? O perdão é aquilo que transforma a culpa em desculpa. Mata aquele bichinho feio que corroe você por dentro. Um simples sorriso basta para mastigar a culpa, transformá-la em milhares de partículas que se perderão numa alma perdoada. Imagine como seria ruim não ser o culpado. Não poder se arrepeder. Passar o resto da vida sem sentir o tesão de uma reconcialiação.
Pensa bem, aquele abraço, aquele beijo prolongaaaaadooooo, aquela respiração intensa, aquele amasso que só quem já teve culpa conhece.
Pensa bem, você deve ter feito alguma coisa errada.
Gisela Cesario
Pensa bem, o que você fez de errado, ficou sentado no metrô ignorando a velhinha cheia de sacolas, mentiu pro namorado ou namorada, colou na prova, roubou no troco, passou no sinal vermelho, comeu sobremesa. Motivo pra se sentir culpado é o que não falta. E se faltar, a culpa é sua que está esquecido, sim, porque você deve ter feito algo errado. Quando um relacionamento termina, é normal a gente se perguntar aonde errou, de quem foi a culpa. Convencidos de que a culpa não foi nossa, passamos a pensar nos atos do outro, que deve ter sido culpado. Se mesmo assim, parecer que não houve erro, que tudo simplesmente tinha que acontecer assim, passamos a pergunta eterna, o que fiz pra merecer isso?. Aí já consideramos que estamos redimindo pecados de outra vida ou de um tempo tão remoto que não conseguimos lembrar. Foi aquele picolé que você roubou quando estava na primeira série, foi a vez que você derrubou o castelo de areia do seu priminho, foi aquele dia que você desejou que o professor fosse atngido por um raio só pra não ter prova. Não adianta. Somos culpados. A culpa é tão inevitável quanto o mais inevitável dos acontecimentos. Até a morte, o mais previsível dos fatos, é motivo de arrependimento. Morre-se de velho sim, mas poder-se-ia ter morrido mais velho, se não fumasse, nem bebesse, nem nunca tivesse comido um grama de gordura trans, se tivesse tomado dois copos de chá verde, oito de água, consumido ômega 3...quem sabe pode-se criar uma pessoa numa bolha, consumindo só coisas saudáveis e essa pessoa nunca, nunca, jamais morrerá, o que será uma tremenda tortura, já que o bom da vida é ir se matando aos pouquinhos...
Pensa bem,o que você fez de errado, por que esses fios de cabelos brancos, por que essas rugas, por que esse arranhão do lado esquerdo da porta do seu carro.
Fala a verdade, quando você diz bom dia, está mesmo é com vontade de dizer vá pro inferno e não enche o meu saco. Quando levanta pra dar lugar a uma velhinha pensa por que essa desgraçada não tomou um táxi ou então tomara que Deus me recompense e eu consiga uma promoção.
Além de culpados, a maioria de nós é miserável. Pensa que só porque fez uma coisinha boa à toa já é a madre teresa de calcutá, aí, se a recompensa não vem, o cão fica desobediente ,e o homem e a mulher ficam com raiva. Com raiva da vida, do destino, pensam o que fiz pra merecer isso, acabam fazendo alguma coisa mesmo, gritam, traem, chutam o balde. Pra quê? Pra se sentir culpado depois. A culpa é mola do mundo. Que graça teria nunca poder perdoar nem ser perdoado? O perdão é aquilo que transforma a culpa em desculpa. Mata aquele bichinho feio que corroe você por dentro. Um simples sorriso basta para mastigar a culpa, transformá-la em milhares de partículas que se perderão numa alma perdoada. Imagine como seria ruim não ser o culpado. Não poder se arrepeder. Passar o resto da vida sem sentir o tesão de uma reconcialiação.
Pensa bem, aquele abraço, aquele beijo prolongaaaaadooooo, aquela respiração intensa, aquele amasso que só quem já teve culpa conhece.
Pensa bem, você deve ter feito alguma coisa errada.
Gisela Cesario