Em 36 anos uma pessoa pode fazer muita coisa. Há tempo suficiente para escrever algo de bom, ajudar pessoas, trabalhar, procriar, plantar árvores...porra são 36 anos!!
Mas, veja bem, desses 36, 7 ou 8 eu passei sem saber escrever suficientemente bem, depois tinham as provas na escola, eu precisava estudar química, fazer educação física e ainda conquistar meninos mais velhos de 14 anos, não dava tempo...
Depois, com 17, 18 anos, veio a faculdade, coisa difícil, séria, matérias pesadas, aprender a dirigir, se livrar das multas, sair à noite e ainda conquistar meninos mais velhos de 25 anos, não dava tempo...
Finalmente, chegaram os vinte e poucos anos, já formada, tinha que trabalhar e trabalhar em agência de propaganda, trabalhar que nem o cão, virar noite, criar títulos lindos, melódicos, fantásticos, para vender ofertas de supermercado, trabalho duro e ruim, precisava pensar na vida, mudar de emprego toda hora, refazer o portifólio, correr atrás daquela oportunidade quem sabe com quem e ainda conquistar caras mais velhos de 35 anos, porra, não dava tempo....
Aí veio a sonhada maturidade, a maturidade não é quem nem gravidez, ela não avisa quando chega, maturidade é que nem aquela visita que chega sem avisar na sua casa e quando você vê ela já está morando lá.
Num dia você tem um pensamento de velha, depois outro, depois uma atitude de velha, aí alguém te chama de senhora, você ri, outro dia, outro alguém faz o mesmo, você diz “me chama de você”, agora é a pessoa que pessoa ri, você diz foda-se, diz baixo, pra você mesmo, que você não tem mais idade pra mandar ninguém se fuder.
Aí é mudar de vida, encontrar um emprego que goste, começar tudo de novo, ser uma caloura velha na faculdade. Recomeçar para não se sentir velho ou só pra se sentir nova de novo? Sei lá, não tenho mais respostas, não tenho mais 18 anos. Tenho que cuidar da pele, do cabelo, das celulites, ler mais, ganhar dinheiro, ter paciência com os pais e ainda, pra completar, tenho que correr atrás, ou melhor, conquistar meninos de 20 e poucos anos. Aí você pensa: de novo? É de novo, bem novo, quanto mais novo melhor. E se Deus quiser, todo dia vai ser sempre assim.
Obrigada meu Deus, por tudo que eu fiz nesses 36 anos, ainda que isso tenha me impedido de fazer o que realmente deveria ter feito, porque valeu a pena.
Gisela Cesario
Às vezes é difícil decidir o que dói mais, escrever ou engolir as palavras. Deixar que elas entrem em contato com tudo que está dentro da gente, deixar que elas se percam num estômago faminto, num coração acelerado ou num fígado mal-humorado.
terça-feira, dezembro 15, 2009
segunda-feira, novembro 23, 2009
Três
Estou de saco cheio. Não consigo ler nada que tenha mais de 3 linhas e que não tenha sido escrito por mim ou por alguma pessoa que eu tenha o mínimo de respeito, tipo o Agamenon, pronto, três linhas.
Outro parágrafo. Cansaço, verão no rio é foda, literalmente ririam alguns turistas queimados e literalmente fudidos, nenhum carioca acha isso engraçado, odeio esse calor da porra. Mais três linhas.
Trabalhei numa agencia que o redator fez este titulo infame: “verão no rio é flórida”, pra vender viagem p/ Miami. Propaganda às vezes da vontade de vomitar. As próximas três linhas serão melhores. Prometo.
Esqueci o que ia falar. Idade tb é foda. Dessa vez, não literalmente. Mas esquecer não é uma maldição, é uma benção. O órgão mais inútil do corpo é o cérebro, é o único que faz você feliz exatamente quando não funciona.
Pra que pensar, refletir, se arrepender? Vc vai fazer tudo de novo. Talvez só se arrependa menos. O sol está inclemente. Tenho dois ares (é assim?) condicionados ligados. Minha casa parece a África.
Odeio meus amigos, nem queira saber o que eu sinto pelos meus inimigos. Meus amigos são uns merdas, interesseiros como eu, só é possível ter amigos quando se é jovem, aos 35, você só tem concorrentes.
Lembrei, merda, queria esquecer pra sempre, ia dizer que ser jovem e alienado é legal porque vc conhece um monte de gente jovem e alienada. Ser velho e alienado é meio Arnaldo Antunes, quase ninguém te entende.
Por outro lado, se é que estamos de algum lado, os jovens não percebem que vc é velho, eles vivem em outro mundo, é bonito lá e eles te deixam entrar. Deve ser por isso que gosto de menininhos, mas respeito os menores...
Talvez tenha virado meio vampira, me alimento do sangue jovem, da alegria que um dia foi minha, da esperança que não tenho mais. Os homens não gostam de meninas porque são sacanas, eles gostam porque as pessoas mais novas fazem a gente se sentir menos velho, eles gostam porque também odeiam ser velhos, eles são vampiros tb, como eu. Fodam-se as três linhas.
Um sorriso de vinte e três anos te dá um misto de alegria e melancolia que nem um porre de absolut conseguiria. É lindo, é como assistir a um filme que vc sabe que vai acabar mal, mas adora ver o meio. O meio é lindo.
Estou menos de saco cheio, lembrei que existe gente nova, lembrei que gosto de escrever, lembrei que é bom esquecer das coisas. Não sei porque cismei com essas três linhas. Três é demais.
Outro parágrafo. Cansaço, verão no rio é foda, literalmente ririam alguns turistas queimados e literalmente fudidos, nenhum carioca acha isso engraçado, odeio esse calor da porra. Mais três linhas.
Trabalhei numa agencia que o redator fez este titulo infame: “verão no rio é flórida”, pra vender viagem p/ Miami. Propaganda às vezes da vontade de vomitar. As próximas três linhas serão melhores. Prometo.
Esqueci o que ia falar. Idade tb é foda. Dessa vez, não literalmente. Mas esquecer não é uma maldição, é uma benção. O órgão mais inútil do corpo é o cérebro, é o único que faz você feliz exatamente quando não funciona.
Pra que pensar, refletir, se arrepender? Vc vai fazer tudo de novo. Talvez só se arrependa menos. O sol está inclemente. Tenho dois ares (é assim?) condicionados ligados. Minha casa parece a África.
Odeio meus amigos, nem queira saber o que eu sinto pelos meus inimigos. Meus amigos são uns merdas, interesseiros como eu, só é possível ter amigos quando se é jovem, aos 35, você só tem concorrentes.
Lembrei, merda, queria esquecer pra sempre, ia dizer que ser jovem e alienado é legal porque vc conhece um monte de gente jovem e alienada. Ser velho e alienado é meio Arnaldo Antunes, quase ninguém te entende.
Por outro lado, se é que estamos de algum lado, os jovens não percebem que vc é velho, eles vivem em outro mundo, é bonito lá e eles te deixam entrar. Deve ser por isso que gosto de menininhos, mas respeito os menores...
Talvez tenha virado meio vampira, me alimento do sangue jovem, da alegria que um dia foi minha, da esperança que não tenho mais. Os homens não gostam de meninas porque são sacanas, eles gostam porque as pessoas mais novas fazem a gente se sentir menos velho, eles gostam porque também odeiam ser velhos, eles são vampiros tb, como eu. Fodam-se as três linhas.
Um sorriso de vinte e três anos te dá um misto de alegria e melancolia que nem um porre de absolut conseguiria. É lindo, é como assistir a um filme que vc sabe que vai acabar mal, mas adora ver o meio. O meio é lindo.
Estou menos de saco cheio, lembrei que existe gente nova, lembrei que gosto de escrever, lembrei que é bom esquecer das coisas. Não sei porque cismei com essas três linhas. Três é demais.
segunda-feira, outubro 12, 2009
O dia em que eu morri
Quando eu era adolescente havia um comercial excelente falando dos males de beber e dirigir. Era um cara normal com uma blusa preta, ele falava pra câmera e parecia que ele ia contar um acidente normal de trânsito, mas no meio do texto ele falava “aí, cara, eu morri..., pois é, eu morri.” O fechamento era algo do tipo “quem morre não volta pra contar história”. Ganhou vários merecidos prêmios tanto pela simplicidade quanto pela inteligência. Mas eu não comecei a escrever para falar em bebida nem na inacreditável lei seca. Escrevo pra falar mesmo na morte. A gente sempre pensa na morte como o fim. E tem que quem diga que a morte não é o fim. Pois eu acho que o fim nem sempre é a morte. Fulaninho morreu e não sabe é uma expressão muito comum e não é à toa que ela é usada, tem gente que está realmente tão desconectada da vida que praticamente está morta. Tb acho que eu sou uma dessas pessoas. A diferença é que eu sei. Eu bebi, dirigi e morri. Só que não foi num acidente de carro, foi num acidente de vida mesmo. Foi num daqueles erros que a gente comete que não se satisfazem em serem somente um erro, eles se reproduzem, têm filhotes e quando a gente vê a nossa vida está tão errada mas tão errada que nem é mais uma vida, é uma morte mesmo. Eu não sei mais distinguir a mentira da verdade, a paranóia da certeza, o medo real da loucura nem o amor da solidão. Eu morri, como dizia o cara da propaganda. Eu olho pros lugares e me procuro, eu não estou bebendo naquele botequim, não estou jantando com meu marido, não estou em casa vendo novela, não estou me drogando nem fazendo sexo, não estou na fila da boate. Eu estou na minha enorme ausência de todas essas coisas e todos esses lugares. Morrer é ser o não ser. Eu hoje, ou melhor, há muito tempo, já não sou. Não importa o quê, nem importa quem, o que importa é o não. A vida é uma coisa que parece te dizer sim todos os dias até que um dia não, pronto, morreu. É isso.
Ninguém vai ler esse texto porque talvez eu nem esteja aqui escrevendo. Talvez eu tenha me transformado no cara do comercial, que nunca voltou pra contar a história.Gisela Cesario
Ninguém vai ler esse texto porque talvez eu nem esteja aqui escrevendo. Talvez eu tenha me transformado no cara do comercial, que nunca voltou pra contar a história.Gisela Cesario
quinta-feira, agosto 06, 2009
Problema seu
Quem nasceu primeiro? O ovo ou a galinha? Tostines vende mais porque está sempre fresquinho ou ao contrário? E os escritores? Eles escrevem porque são malucos ou ficam malucos porque escrevem? Inclusive, o que exatamente significa ser maluco ou ser escritor? O mundo é cheio de coisas duvidosas, mas na qualidade dos Postos Esso você pode confiar, diria um maluco, escritor, publicitário. A publicidade envenena um escritor como a prostituição faz com uma mulher bonita. Essa frase lamentável é minha. Mas não se preocupem, vou mudar de assunto. Não tenho paciência para falar de propaganda há séculos. O tema da redação de hoje é ( esse verbo concorda com o sujeito tema) pessoas que não respondem quando a gente cumprimenta. Explicito: Quantas vezes na sua nobre vida, você, querendo demonstrar ser um ser humano como outro qualquer, diz bom dia a alguém e simplesmente não recebe resposta alguma em troca. Caso concreto: você chega em casa depois de um dia horrível, em que você está com vontade de esganar o primeiro que buzinar no trânsito, mas, mesmo assim, você pensa, direi boa noite. E é isso que voe faz: Boa noite. Em resposta? Nada. Isso mesmo, amigos, nadica de nada. O cara, ou é surdo, ou finge que não ouviu. Outro dia pensei na solução ideal para isso. Eu desceria do carro, me transformaria num apresentador de auditório, estilo Raul Gil, e gritaria em alto e bom som: “ eu disse BOA NOITE!!!” E então, meu auditório, no caso, o porteiro, faria aquela cara de envergonhado e falaria meio cantando: Boa noite.... Bom, aí eu volto para o carro, grito um OBRIGADA! e pronto, meu dia fica muito melhor. Não é uma boa idéia? Isso também pode funcionar em elevadores lotados, quando você consegue se enfiar num lugar entre gordos e mochileiros e diz: bom dia. A resposta natural é foda-se, mas eles não tem coragem e simplesmente ficam calados. Então, novamente entra em cena, o super Raul Gil, você abre um sorriso de orelha a orelha, encara sua platéia e BERRA: EU não escutei! Eu disse BOM DIA PESSOAL! Claro que haveria o coro, nesse caso aí, mais de saco cheio do que envergonhado: Bom diaaa...Você pode pensar que ninguém responderia nada, que eles simplesmente achariam que você era doido, mas acredite, eles responderiam, meramente pelo inusitado da situação. As pessoas estão tão pouco preparadas para o não-óbvio que, se você parar no meio da rua, encarar alguém bem seriamente e disser: no chão, três abdominais, é capaz de o cara fazer, claro, se você for homem e tiver cara de militar. Então, como diriam meus paulistas amigos, é isso, meu, o inusitado da vida nos faz questionar coisas profundas (sem duplo sentido, please) e ver quão banais ou quão igualmente banais são nossas reais preocupações. Preocupe-se com um problema que não existe ou que não te preocupa e você verá que ele não é diferente dos outros problemas, aqueles que existem e te preocupam. Fui clara? Espero que não. Gosto de fazer as pessoas pensarem.
Gisela Cesario
Gisela Cesario